Mudando nomes, e… só

Depois de um caso nos EUA sobre um homem negro chamado George ter sido assassinado pela polícia em uma revista, a luta anti racista voltou a ser pauta por muito tempo. Em alguns lugares, a chama se acendeu e logo apagou - isso para pessoas brancas, porque para pessoas não-brancas, isso é questão do cotidiano. É uma luta diária. Não é algo que se passa na TV e só. Mas isso fica pra outro dia.

A questão é que com isso, muita gente branca começou a repensar o que fazem no dia a dia, como agem, questionar coisas, estruturas, etc. Muita coisa boa saiu disso, muita coisa nova apareceu. Junto com isso, surgiu uma onda de repensar os nomes e apelidos que se usam para as coisas, e então, coisas relacionadas a tecnologia.

Master? Slave? xyz-man? Tudo isso passou a ser questionado. Até um linter em Ruby, chamado Rubycop, foi questionado quanto a parte cop seu nome.

“Ok, até compreendo o questionamento, mas é necessário?”

Sim. Mas não.

É necessário questionar as coisas que você vê, faz e utiliza no dia a dia? É necessário se colocar numa posição de auto reflexão e mudar as coisas? É sim. É a partir daí que nós, como pessoas, conseguimos parar de causar dano e desconforto à outras, com coisas que nem sequer imaginávamos que eram ofensivas ou que causavam desconforto. Isso não é só sobre a luta racial, mas sobre todas as lutas.

O problema é ficar apenas nisso. Trocar o nome do seu ramo (ou branch) principal de master para main é um ponto de partida na mudança, até porque leva a gente a refletir em como nomeamos as coisas: por exemplo, “mestre” não é representativo ao seu propósito, que é representar a versão principal de um projeto, já usar o nome main, que significa “principal”, sim - ou qualquer outro que você consiga encontrar, que seja descritivo. Já mexeu em código que tu não entendia o significado porque as variáveis se chamava foo, bar, etc?

O mesmo é válido quando queremos trocar de master/slave (mestre e escravo) para primary/replica (primário e réplica), etc. Com isso as coisas tendem a fazer mais sentido. O mesmo vale pra outros nomes como “man” (postman?), etc.

Todo mundo já passou por isso em programação. É mais fácil de entender o que o projeto “api-users” é, do que ler “nightfull-chamber” - porque os nomes são mais descritivos, são mais atrelados ao seu propósito, mas como estamos falando de problemas sociais graves que se relacionam com isso, vai ter gente achando que é algo partidário/optinativo e que “não tem nada a ver com tecnologia”.

Trocar nomes é fácil. Isso não vai impedir uma pessoa negra de sofrer racismo, não vai impedir uma pessoa trans de ser marginalizada e rejeitada. A questão aqui é que tudo tem um ponto de partida, e se tratando desse tipo de problema, as questões estão bem mais enraizadas no nosso cotidiano do que a gente pensa, e começa pelos lugares que a gente menos imagina - como o nome que você dá a um branch, um apelido pra isso ou pra aquilo, uma “brincadeira” com alguém, e por aí vai, são essas pequenas coisinhas que, conforme vão crescendo, tomam outra forma cada vez mais grave. O garoto que chamou o colega de “macaco” na escola ou achava o cabelo diferente sujo, já cresceu e hoje não contrata ninguém com dreads porque acha que é sujo e que esse tipo de gente “não toma banho”(essa já tive o desprazer de escutar pessoalmente). Isso por si só é só a ponta do iceberg, ainda tem muito mais coisas pra repensar e de fato agir.

Se você, como pessoa branca, se interessou minimamente pelo debate sobre mudar nomes e etc. Não pare por aí. Eu já vi listas de nomes, o que usar ou não usar, já vi gente tratando isso como revolucionário. Não é.

Se você quer de fato ajudar na luta anti racista, na luta por pessoas LGBTQ+, na luta de classes, invista. “Dinheiro não traz felicidade”, mas é através dele que o sofrimento é imposto por todo o mundo, dentre outras vias. Invista em pessoas que fazem parte de grupos minoritários. Além disso, tem mais:

Dê voz.

Traga essas pessoas para os espaços que só vocês frequentam. A maioria das pessoas que você conhece e que vacilam com essas ações, dificilmente vão escutar uma pessoa oprimida, um negro, uma pessoa indígena, uma mulher, uma pessoa trans. É aí que você, um igual, entra. É você o amigo/amiga que vai colocar a mão no ombro e soltar um “abaixa a bola aí, não é assim” e explicar.

Ah, você não sente que tem muita bagagem sobre isso? Tudo bem. Vê algum vídeo no Youtube sobre, enquanto lava a louça, lê algum artigo ou livro sobre a causa, escuta um podcast. Tem pessoas pretas, LGBTQ+, amarelas e etc de sobra produzindo conteúdo. Consuma conteúdo. Conhecimento liberta, e deve ser acessível à todas as pessoas.

Não fique só na luta de internet, nas petições. Converse com as pessoas do seu trabalho, da sua família, ensine-os.

Pequenas coisas podem ajudar, e muito.